Investigadores particulares enfrentam situações de muita tensão. A maioria dos serviços decorre da suspeita de traição
Por Cristiane Madeira
Jornal do Brasil - JB Online
Eles passam longe do mito de Sherlock Holmes. Não usam cartola, não vestem sobretudos misteriosos e nem fumam cachimbo. É verdade que os detetives particulares do Distrito Federal vivem momentos de pura adrenalina e situações de risco, mas procuram ser do tipo mais comum e discreto possível. Tudo para não levantar suspeitas e garantir a satisfação do cliente, sempre atrás de informações que só um investigador profissional pode conseguir.
Cláudia e Edilmar Lima são detetives experientes. Ela trabalha há 18 anos em Brasília, e ele, há 11. Eles garantes que a maioria da procura por investigadores na cidade é por conta de adultério.
- Mais de 90% dos casos que pego são de pessoas que desconfiam do marido ou da esposa. Eles querem a prova viva de que estão sendo traídos, pedem fotos e fitas de vídeo. Tenho que sair atrás do investigado no trânsito, na saído do trabalho. Faço campana até em cima de muro de motel - diz Cláudia.
Edilmar Lima, que também é professor de um curso de investigação, confirma. No caso dele, casos de adultério somam pouco mais de 70%.
- Além de traições, tenho que descobrir muitas coisas misteriosas em ambientes de trabalho, como furtos e desvio de documentos. Já infiltrei muito detetive da minha equipe nas empresas investigadas - conta.
De fato, um detetive particular precisa ter algumas aptidões. Entre elas, o talento para representar. Lima diz que já perdeu as contas de quantos disfarces já usou.
- Até hoje, me fantasiei de tudo que alguém pode imaginar: garçom, mendigo, executivo. Menos de mulher e drag queen - brinca o detetive.
Cláudia frequentou aulas de teatro em São Paulo, quando foi fazer o curso para se tornar detetive.
- Cheguei a me disfarçar de prostituta. Me infiltrei em um cabaré e fiquei por lá uns três dias para investigar uma menina que meu cliente estava atrás. Dei a desculpa de que estava menstruada para não fazer programas. Quando consegui o que queria, fui embora sem dar explicações - lembra a investigadora.
Em relação aos equipamentos, a realidade dos detetives brasileiros é bem diferentes dos aparelhos de alta tecnologia imaginados para os filmes de James Bond. Os maiores aliados são máquinas fotográficas e filmadoras comuns, além de gravadores e grampos telefônicos.
- Procuramos usar as menores câmeras possíveis, mas nem sempre é necessário. Tem umas que podem ser pregadas ao botão de uma camisa e já estão disponíveis no mercado, assim como os gravadores de voz. Antigamente, esses equipamentos eram bem mais caros. Hoje, podem ser encontrados em preços mais acessíveis - explica Lima.
Por conta do trabalho, os detetives particulares passam por maus bocados. Situações delicadas e constrangedoras. Cláudia conta que teve sérios problemas com um cliente que se apaixonou por ela e passou a persegui-la.
- O homem era tão desequilibrado que escreveu meu nome e o número do meu celular num monte de notas de R$ 1 e R$ 5, dizendo que eu era garota de programa. De repente, um monte de homem começou a me ligar. Consegui recuperar algumas notas e dei queixa na polícia. Processei por danos morais e difamação - diz a detetive, que garante nunca ter se envolvido com nenhum cliente nos 18 anos de profissão.
Já Edilmar Lima teve problemas justamente por se envolver com uma mulher que tinha sido sua cliente, anos atrás.
- Já tinha terminado o trabalho para o qual ela me contratou, mas a moça era noiva de um juiz, que não aceitou ela ter se separado para ficar comigo. Namoramos quase dois anos. O ex-noivo mandava a polícia atrás de mim dizendo que eu era bandido. Foi horrível. No fim das contas, terminei com ela e processei o cara por danos morais - disse.
A profissão de detetive é regulamentada pela Lei federal 3099/57, que determina idade mínima de 18 anos e demais condições para o procedimento de investigação.